Prioridades, prioridades…

foto: reprodução
Os gastos com as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, serão de, estima-se, R$25 bilhões.
Estamos falando de valores a serem injetados em uma única cidade brasileira. A Copa do Mundo de 2014, cujos investimentos foram abertos há poucas semanas, através de uma linha de financiamento 5 vezes menor que o valor “olímpico” (R$5 bilhões), será realizada em doze capitais estaduais, incluindo a fluminense.
Não consigo deixar de imaginar que, com a escolha do Rio, estaremos abrindo mão de uma organização muito mais qualificada para a Copa. E, ao fazer esta observação, refiro-me a aproximadamente 30 milhões de pessoas que terão suas expectativas quanto ao auxílio de investimentos federais em suas cidades diminuídas drasticamente. Para piorar, restará o gosto amargo de que estes mesmos cidadãos estarão financiando benefícios, em boa parte, exclusivos aos cariocas.
Porém, o mais incompreensível de toda esta pretensão brasileira, que é boa, porém ilógica, é o fato do Brasil ter uma estrutura, hoje, incapaz de desenvolver as modalidades olímpicas no pais. Nesta perspectiva, seríamos a primeira sede da história onde mais da metade dos competidores são de baixo nível, com patrocínios escassos e sem a chance de disputar em igualdade com o principal escalão mundial. E não há mágica capaz de reverter este quadro em pouco tempo. Afinal, com toda a grana gasta em estádios e asfalto, pouco sobrará para trabalhar os próximos anos na formação de atletas de alto rendimento.
Antes de sediar os jogos, o Brasil deveria aprender a competir, ser forte. Depois, vendo seus atletas consolidados e um sistema fértil para a captação e desenvolvimento de novos talentos, aí sim poderíamos sediar uma Olimpíada digna. Em 1988, nas Olimpíadas de Seul, na Coréia do Sul, a China terminou na 11ª colocação do quadro geral de medalhas. Nas edições seguintes, foi galgando espaço aos poucos para, após 20 anos, chegar ao topo. Foram longas duas décadas de investimentos e trabalho sério, elementos ainda distantes da realidade tupiniquim.
Nós, brasileiros, estamos cansados de lidar com a política, cansados de sermos desrespeitados pela má administração da máquina pública. Em contrapartida, muitos aceitam o fato de estarem oferecendo R$ 25 bilhões para serem colocados na mão de poucos, e em uma cidade que convive com uma constante batalha entre o tráfico e a parte do poder público que ainda não se corrompeu. É muita irresponsabilidade. Se é para o Rio de Janeiro captar esta grana, que seja para dar um jeito em si, não para construir Vila Olímpica que irá ser vendida posteriormente como apartamento de luxo.
Insisto: vamos deixar de fazer um grande espetáculo naquilo em que somos considerados gênios, caso do futebol, para concentrar investimentos em uma Olimpíada que provará para todos nós o quanto o esporte nacional é mal gerenciado. Teremos picadeiros de primeiro mundo, mas nossos artistas não estarão a altura. Com sorte, dali outros pares de anos, serão qualificados o bastante, mas já terá sido tarde para 2016.
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