Das ironias

escrito por Luiz D'Avila Cabral

brasil
foto: stock.xchng

Acorda, desliga o despertador. Quatro e meia, manhã. Jura: passaram-se apenas 5 minutos. As poucas horas de sono parecem cansar-lhe ainda mais. A cama, através das dores na região lombar, avisa-lhe: está avariada. Levanta da cama aos gemidos, enquanto a esposa dorme o sono profundo da madrugada. A abandona sob os lençóis com um beijo na testa.

Prepara o café, bebendo-o em um copo de vidro em seguida. O pão, submissamente untado pela manteiga, é mordido sem piedade. É sorte ele não reagir, pois será todo o alimento de boa parte da manhã. Toma um banho rápido, para auxiliar a cafeína a manter-lhe acordado. Arruma a mochila com o material do trabalho, tomando cuidado para não esquecer de nada.

Caminha até a estação de trem, dois quilômetros dali. No trajeto, cuida para não ser surpreendido. A ausência do sol e a iluminação precária das ruas o transformam em presa fácil dos intempéries de uma zona erma e insegura da cidade. 20 minutos depois, percebe o movimento dos trens. Alivia-se.

Na plataforma, tumulto. Vários rostos, homogeneamente embriagados de sono, aglomeram-se para garantir seu espaço. Não há reclamação, mas um ar de conformidade.

Cinco e meia, toma o trem. As cabeças, outrora adversárias por alguns centímetros de chão, unem-se ao mesmo movimento de vai e vem. Os olhos piscam e as sobrancelhas arqueiam para vencer as consequências da noite sonegada pelo despertar repentino. 30 minutos depois, está na estação da Luz, em São Paulo.

Ao trocar de linha, repara em uma banca de revistas. Não havia tido contato com nenhum tipo de notícia há mais de um dia. Ao ler uma das capas, não foi capaz de conter um sorriso. Ainda assim, não compra o jornal. Aos assovios, embarca na linha azul do metrô arrastado por centenas de pessoas. Agora, não são nem rostos ou cabeças, apenas uma massa de seres irreconhecíveis.

A custosa troca para a linha vermelha na estação da Sé, lar de milhares de usuários diariamente, não o incomoda. Viaja duas estações com a mão pressionando as portas, e a mochila entre as pernas. Desce na República, mas não sai da estação. Ali, junta-se aos companheiros nas obras de expansão.

Dez horas mais tarde, corpos moídos pelo esforço perguntam-lhe a razão para tanta alegria durante o dia de trabalho. “São as Olimpíadas”, diz.

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