Finos

escrito por Luiz D'Avila Cabral

PCF_montagem
foto: Montagem sobre divulgação.

Na Consolação, em um movimento rápido, de dar inveja em qualquer pessoa doutorada na arte do pole dancing, apoio-me nas barras do vagão e ultrapasso alguns corpos até alcançar a saída do trem. Na plataforma da estação, vários seres, alguns malevolentemente ajustados para a noite suburbana, praticam o mais antigo dos esportes: a caminhada. Neste caso em especial, o destino apontava para as setas verdes das roletas.

Perto da escada rolante, as narinas ajudam a traduzir um odor familiar. Percebo também um som tilintado e igualmente conhecido a ecoar ali perto. Enfim compreendi: eram as goteiras umedecendo o concreto, prenúncio evidente da inundação que tomava a Avenida Paulista aquela noite. Embora não esteja guarnecido de um anteparo para salvaguardar minha massa corpórea avantajada, pouco me importo: saio da estação e parto para o abraço sincero, sendo prontamente correspondido pelos pingos de chuva, alegres por encontrarem um destino após serem abandonados à sorte pelas nuvens.

Logo na primeira esquina, tomando cuidado para não ser traído pelo solo vasilinado a base d’água, pratico um gingado clássico, girando meu corpo em noventa graus para a esquerda. Ao enxergar a Rua Augusta daquele ponto, posterior ao Conjunto Nacional, em direção ao centro, foi impossível não lembrar Vitor Ramil cantando “A Zero Por Hora”. De fato, o mundo visto desse jeito é uma diversão. Acelero o jogo de pernas e deixo para trás uma das mais prósperas vias brasileiras rumo ao Studio SP, onde o climax noturno seria alcançado com o devido louvor.

Meia descida adiante, vejo um sujeito ser abordado por um grupo de rapazotes. Ele espera perder apenas o cigarro a ser dado ao primeiro garoto a lhe chamar a atenção. Porém, o interpelado acaba vendo o maço inteiro morrer nas mãos dos tais camaradinhas. Passo lotado pela discussão e penso na alegria de não ser um fumante àquela altura. Logo, enxergo as tradicionais luzes rubras e piscantes responsáveis por indicar onde gringos, curiosos e tarados devem esvaziar suas carteiras em troca de alguns favores. Embora a oferta seja vasta, definitivamente não pertenço a nenhum dos grupos supracitados. Não naquele momento.

Ainda em meio a evolução, foi minha vez de topar com alguém. No rosto, aquele homem carrega um sorriso com resquícios de que, um dia, existira algo semelhante a dentes em sua boca. O estilo maltrapilho fica explicado quando descubro, através do próprio, se tratar de um hippie. Não me preocupo com tal presença, mas a sensação de invasão obriga-me a encolher o corpo e acelerar o passo para evitar de ser achacado. Então, ouço a frase mágica: “não vou nem pedir dinheiro pra você, amigo”. “Maravilha, tu precisa de alguma coisa?”. É quando, um pacote de 22 fraldas para bebê mais tarde, posso seguir tranquilo até concluir minha jornada.

Dentro do recinto, recebo um cartão onde são debitados os valores gastos naquele espaço muito bem frequentado chamado bar. Inauguro o placar com uma loira pescoçuda, a famosa cerveja long neck. Naquele momento, entre um gole e outro, percebo como o palco, não ocupado, é observado por algumas mesas igualmente vazias, com exceção de duas delas cujas cadeiras ao redor estão devidamente abundadas por alguns poucos. Os demais habitantes presentes revezam-se entre o banheiro e a roda de papo com os conhecidos. Em um certo momento, uma jovem, lindamente adornada por um vestido branco serelepe e decotado, faz os de cromossomo xy virarem o rosto para analisar aquele sutil rebolado enquanto ele vai ao encontro do toalete. Não me surpreende o fato do mesmo efeito voltar a ocorrer após aquele exemplo nota 10 de fenótipo retornar ao ponto de partida. Termino a primeira gelada e logo inicio o segundo tempo, aguardando o princípio dos trabalhos musicais. Aliás, apesar de curtir as chicas guapas a desfilarem pelo salão, este ainda é o motivo para eu estar ali: logo mais, apresentar-se-iam os simpáticos rapazes do Projeto Coisa Fina.

Imagem de Amostra do You Tube

Já passa das 22 horas quando a movimentação fica mais intensa, embora o local ainda mostre um certo vazio demográfico. Como o silêncio ainda faz frente ao vozerio, é possível ouvir – involuntariamente, diga-se de passagem – algumas histórias de glórias masculinas em noites passadas e problemas conjugais durante telefonemas a tarde. Enquanto isso, sigo ali, gaiato, a bebericar meu suco de cevada fermentada. Después de pouco mais de meia hora, sobe no palanque principal os 13 virtuoses do PCF. Inicia no tal instante uma viagem musical entre jazz, samba e maracatu, algo justo se comparado ao release disposto no site do grupo, onde dissertam sobre a sonoridade do seu trabalho.

Por cerca de uma hora, rendo-me à dúzia de composições tocadas sem dó, entre próprias e outras várias do maestro pernambucano Moacir José Santos (1926 – 2006), todas são exibidas com a devida classe por aqueles jovens. Posso não ser um entendedor deveras sagaz sobre a arte de produzir música, a ponto de situar tal conjunto audível através de uma referencia bastante reducionista, denominando-o popularmente como “musiquinha de elevador”, mas, apesar dos pesares, certamente sei identificar e apreciar um som de primeira linha.

Imagem de Amostra do You Tube

As moçoilas ainda circulam seus dotes pelo espaço, porém, sem ter nem 30% da minha atenção, pois ali, há apenas alguns metros, está um belo exemplo de dedicação, sincronia e companheirismo coordenados pelo contrabaixista Vinicius Pereira, o chefe daquela gangue do bem que, ao lado do saxofonista Daniel Nogueira, fundou o grupo em 2005. Não por acaso, exibem em equipe as proezas de saxofones, teclado, guitarra, trompetes, percussão, flautas e outros tantos apetrechos bacanas. E como as únicas coisas de metal são os instrumentos, em dados momentos alguns deles calibram o sopro bebericando uma água ou outras coisinhas lícitas.

Alegro-me ao saber mais detalhes sobre o PCF. Todas as primeiras terças-feiras do mês, eles dão o ar da graça for free no Studio SP. Também fazem parte do Movimento Elefantes, responsável por reunir algumas das big bands desta ode ao concreto chamada São Paulo e, inclusive, promover alguns showzitos na base do “pague quanto vale”. E, para comprovar o quanto se trata de um investimento válido, encerram a apresentação com Construção, de Chico Buarque. Coisa mais fina impossível.

Satisfeito, desfaço-me, via lixo, da garrafa vazia que enfeitava minha mão e servira como batuque nos últimos 60 minutos corridos. No caixa da bodega, pago a conta e adquiro o direito de reencontrar Augusta, a rua. Tranquilo e aos assovios, dou sequência ao mesmo trajeto de outrora. Agora, sem chuva, já não preciso buscar abrigo nas marquises rumo ao centro da metrópole. Ao chegar lá, sou recebido pelo lar. Ansioso, ele me aguarda para navegar mais um pouquinho pelas melodias da noite.

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