Mendigagem, vida dura

foto: stock.xchng
Diálogos: encontro entre dois colegas das ruas revela alguns dramas contemporâneos nada impossíveis.
- Opa!
- Ó, tudo certo?
- Tranqüilo. Gostei desse cobertor aí?
- Ah, é? Ganhei de uma senhora ali na esquina da Sete de Abril com a Ipiranga.
- É mesmo? Ali perto do ponto de táxi, onde tem um clubinho GLS?
- Isso. E nem me fala desse lugar aí, não consegui dormir direito esse final de semana?
- Ué? Por quê?
- Pô, mó gritaria a noite toda. Fiquei me revirando em cima do papelão por um tempão. Depois, tive que me mudar pra Praça da República e aguentar os mosquitos.
- A praça ali ninguém merece. Os banquinhos até que são bons, não dá muita dor no lombo do cara, mas tem esses bichos zunindo no ouvido o tempo toda. Fora um ou outro casal que pensa estar na Holanda e aparece para dar uma trepadinha ao ar livre.
- É, puta bagulho foda, literalmente.
- Pode crê.
- Que cê tá fazendo aqui?
- Vim passar o resto dia aqui na frente desse banco aí. Tava na outra agência, mas só consegui um e 27 por lá. Muito fraco.
- Caralho, 27 centavos? Neguinho te deu duas moedas de 1?
- Sim, pão duro da porra.
- Tá cada vez mais complicado, viu? Eu sempre confiro os jornais nas bancas. Diz que essa crise aí aumentou a quantidade de camaradas. Mercado tá inflado, mano.
- Sem dúvida, já topei com vários novatos por aí. Fora os que ficam ali pela Santa Efigênia, curtindo uma puta nóia com o pessoalzinho do crack.
- É mesmo. Ali a parada é pesada. Por sinal, acho que nunca te vi por aí.
- Ô, não seja por isso. Meu nome é José Fernando, advogado.
- Prazer, Carlos, médico.
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hahahahaha
muito bom!